que em 1972, quando eu contava 9 anos, meu pai José Lino de Oliveira levou-me ao mercado municipal em Parnaíba (PI), montados num jumento, ele na frente, eu na garupa.

Era um domingo de sol escaldante, e por volta das 8h30 meu pai me deixou em um ponto, saiu e logo voltou com um capão vivo, que seria para o almoço. Deixou o capão preso à cangalha, recomendou muita atenção e saiu novamente dizendo que não demoraria.

Eu, ali, do lado do jumento, olhando todo aquele movimento, não me dei conta de que um ladino estava à espreita só esperando eu ficar sozinho para aplicar o golpe de troca de mercadoria.

O sujeito veio, encostou-se ao jumento, passou a mão sobre a crina do animal, apresentando uma certa manha com animais. Olhou bem para os lados, olhou com firmeza para o capão e disse em meio-tom:

- É, só pode ser este aqui. Mas cadê o menino? Será que saiu?
- O que foi, senhor? Perguntei.
- Tu é o menino que tá olhando o capão e o jumento?
- Sim, sou eu, por quê?
- É que o teu pai mandou pegar o capão e levar porque ele vai trazer outro.

Como fiquei desorientado e ele percebeu, aproveitou a sitação com ares de conhecimento sobre a pessoa de meu pai e, ainda, aproveitando o meu embasbacamento, foi tirando a embira do cabeçote da cangalha e logo desaparecendo no meio das pessoas com o capão.

Eu me senti reprimido diante daquela situação ao sentir intimamente que eu tinha sido enganado.

Eu me lembro que os minutos que me separavam da chegada de meu pai eram tão repreensivos que me dava vontade de deixar o jumento preso à estaca e voltar para casa sozinho. Mas, ao mesmo tempo dois medos me atormentavam: o primeiro era de enfrentar meu pai sem um argumento convincente. O segundo era de abandonar o posto e assim agravar ainda mais a situação que não era boa.

Por fim, meu pai chegou, olhou-me seriamente no semblante e perguntou do capão, o que lhe respondi francamente toda a verdade, com muito receio de ser repreendido e muito mais de levar uma surra.

Ainda bem que meu pai era um homem de bom coração. Repreendeu-me sim, ralhou comigo, porém, vendo o meu choro reprimido, sufocado, apiedou-se de mim e disse com brandura que sujeitos como aquele era gente muito astuta e perigosa, que se devia estar atento o tempo todo.

Entretanto, o que realmente marcou daquela situação foi a maneira com a qual o ladino usou de talento para me ludibriar.

Autor: Antonio José dos Santos Oliveira, 43 anos, de um local público no Brás, São Paulo – SP

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