… Coisa boa essa internet,não? Cá estou eu num domingo à tarde, pensando na vida, pensando na minha infância vivida na cidade de Maringá lá pelos idos dos anos sessenta e setenta, quando me lembro que existe a internet.

Pesquiso um pouco e encontro este site, completo. Pesquiso tudo, vejo fotos, informações e volto no tempo. Vi a foto da catedral sendo construída. Meu Deus, parece que foi ontem, e eu estava lá. Eu ví e viví cada etapa daquela construção. Ver esta catedral crescer a cada dia imprimiu no meu espírito marcas que carrego até hoje. Nasci em Maringá no dia 25 de Outubro de 1962, na Av. Brasil, Vila Operária.
Como disse, cresci junto com a cidade. Vi a avenida Brasil ser asfaltada, ví o Estádio de futebol ser construído. Assisti um jogo de futebol em 1971: Maringá e Santos; 11 x 0, acho que o Pelé tava nele.

Andei descalço por dentro das canaletas de esgoto que estavam sendo colocadas ao longo da av. Brasil. Surfei nos trens a diesel que cruzavam a cidade que crescia a todo vapor. Enfim, tive uma infância muito feliz nesta cidade.

Trago na memória os dias que passava no cemitério tentando desvendar os segredos da morte. Como era muito jovem, não ia muito longe na empreitada. O máximo que conseguia era sentir sono e dormir em cima das tumbas. Uma vez, acordei depois das seis horas da tarde, estava quase noite, escuro, fiquei morrendo de medo e saí correndo feito maluco, cruzei o cemitério em minutos e me escafedi lá pelas cercas que dão para os lados da Vila Operária.

Mas, aí, teve outro problema, tinha a pontezinha onde as noivas se encontravam e viravam duas correntes de ouro e caíam lá no fundo do rio. Mas isso só acontecia à meia-noite de sexta, não tinha problema. Em todo caso, passei pelo local com respeito e reverência, quando estava longe, saí correndo novamente, sem olhar para os lados.

Incrível mesmo foi o dia em que fiquei no cemitério até tarde e voltei pra casa correndo, sem perceber que tinha perdido a chave de casa. Eu tava frito, logo minha mãe chegaria do trabalho, e se não pudesse entrar em casa o couro estava garantido. A solução foi voltar correndo para o cemitério e procurar a bendita chave. Fiz o caminho de volta olhando para o chão com o detalhamento que a pressa me permitia. Nada.
Entrei no cemitério pela cerca quebrada que ficava aos fundos do cemitério e continuei a estratégia. Nada. Fui assim até a portaria. Nada. Bateu o desespero.

Aí, como era costume meu, resolvi apelar para a alminha do Claudiomar. “Menino santo” que havia sido torturado e morto por dois homens no interior do Grande Hotel. Pedi a ele que se me ajudasse a encontrar a chave, que no dia seguinte eu acenderia uma vela na sua sepultura. Aí me veio a idéia: se eu estava no cemitério, por que não ir fazer o pedido a ele na sua sepultura? Mas já estava escuro e o medo não quis me deixar ir. Lembrei da minha mãe; pensei em como era bem possível que ela estivesse na porta de casa esbravejando.

Me enchi de coragem e segui na direção da sepultura do menino santo. Havia uma pequena foto dele em meio às flores que sempre eram muitas e bem frescas. Contornei a sepultura e, como sempre fazia, me aproximei da foto para fitar bem seu rosto. Eu fazia isso quase todos os dias, por que sentia muita tristeza em pensar na maneira como ele fora morto. Bem, o fato foi que quando me aproximei da foto que fica na cabeceira da sepultura, por um instante desviei o olhar e olhei para a cruz que havia acima da foto. Fiquei estarrecido, atordoado. Não acreditava no que via.

Lá estava ela, pendurada por um pedaço de pano que minha mãe havia amarrado nela para que não fosse facilmente perdida. A chave estava pendurada na cruz. E pra esticar a mão e pegá-la? Foi o que fiz, não sei como, mas fiz. Aí, foi correr e correr, de medo, apavoro, susto, e tudo mais. Isso por que até hoje eu me pergunto se naquele dia eu realmente havia estado na sepultura dele. Pelo que me lembro não, mas qual seria a outra explicação? Milagre? Era possível, pois o Santo menino tinha realizado vários milagres a quem pedisse. Talvez isso tenha acontecido, talvez não. Fato é que até hoje eu agradeço a ele por não ter apanhado naquele dia da minha mãe.

Bem, lembro-me de muitas outras coisas que vivi em Maringá. Tem o dia em que cabulei aula pra ir ver o Pelé. Tem as horas que passava em cima dos caminhões acompanhando os comícios: “…levanta sacode a poeira e dá o voto pro Ribas…”. Enfim, histórias de uma infância feliz que viví em Maringá. Há poucos meses, fiz um poema a meu pai, que está enterrado em Maringá. É assim:

Meu Pai
Meu pai era um homem lindo.
Muito tranqüilo, não abrigava dilema.
Aos domingos me chamava e dizia: filho,
Quanto queres para ir ao cinema?

Então, lá ia eu feliz da vida para a matiné. E,
Com o dinheiro que meu pai me ofertava,
Em cinemascope-colorido um sorriso
Na minha alma juvenil eu pintava.

Me lembro ainda do Horizonte – o cine.
Minha memória é agora um filme,
E das tardes que Maringá me dava.

Se hoje, o meu domingo à tarde ainda brilha
É por que meu pai, um dia, pôs essa maravilha
No lugar em que o cinza reinava.”

Autor: Abenon Menegassi, 43 anos, do Posto do AcessaSP de Itaquera, São Paulo – SP.

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Current month ye@r day *