o que foi a nossa Casa do Itaim Bibi – GMIB.

Consta que a Casa da Chácara Itay (Itaí), construída em taipa de pilão, já era centenária em 1896, com 15 cômodos, beirais do telhado em madeira trabalhada, cocheiras, cobertura para charrete ou trole, depósito, viveiro, alcovas, capela e quartos de hóspedes, além do viveiro, moinho de água e pomar. Tais edificações situavam-se à beira de um sinuoso rio com pedras, o Rio Jurubatuba ou Grande ou Rio Pinheiros, depois afastado com a retificação e obras nas décadas de 1920-1930. A situação estratégica dessas edificações indicava que os acessos a São Paulo eram feitos preferencialmente por água. A área estava bem mais próxima da sinuosa margem direita do Rio Pinheiros.

Diz-se que, nas proximidades da Av. Imperial, atual Horácio Lafer, muito antes teria existido um cemitério onde eram enterrados apenas os negros e infiéis. Outra histórica citação é que, na época dos jesuítas, séc. XVI, bem próximo dessa área, fora instalado um posto de observação e defesa, junto a um aldeamento indígena, este no final do Caminho dos Aliados, hoje Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, onde se instala a atual e requintadíssima Casa Fasano.

O casarão conhecido como a sede da região da Chácara Itay, depois Chácara Itahym, do Bairro Itahim e finalmente do Bairro do Itaim Bibi, foi erguido nos séculos XVII-XVIII, tendo seu tombamento em 1982, passando a ser denominada Casa Bandeirista. Tinha sua entrada principal antecedida por uma belíssima alameda que vinha pela Rua Joaquim Floriano, via que era continuação da Av. Brig. Luís Antônio, indo até o início da atual Rua Iguatemi, o então chamado Caminho do Gado para a região de Pinheiros.

Na época da sua ocupação pela família Couto de Magalhães e depois Casa de Saúde Bela Vista, bem no encontro dessas duas vias, erguia-se um imponente portal, com portão e brasão de ferro identificando o clã Couto de Magalhães. Lateralmente, o terreno ia desde a Avenida Imperial, atual Horácio Lafer, chegando até as ruas Aspásia e Sertãozinho, esta última agora englobada pela nova Av. Brig. Faria Lima.

Na sede dos Couto de Magalhães existiu uma capela utilizada pelos familiares, serviçais e amigos, para a reza dos terços, nas novenas, nas missas, casamentos e festas religiosas. Outra informação é que o brasão da família, ignorado quando da derrubada criminosa do portal e substituição do murro original, na década de 1980, fora vendido a um ferro-velho ou casa de antigüidades do bairro de Pinheiros.

Vejam, o querido Bibi, o Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, residiu nessa antiga sede, até 1927, quando se mudou para a Rua Santelmo, agora Cojuba, na casa do seu filho Arnaldo, onde hoje funciona a Creche Sta. Teresa de Jesus. Depois é que se transferiu, com o término da construção da sua nova residência, para a Rua Joaquim Floriano, no nº 72, permanecendo ali até a sua morte em 1961. Atualmente, neste local, encontra-se um hiper-moderno prédio com escritórios de empresas.

A área da Casa Grande, a sede do clã, foi adquirida, em 1927, pelo Dr. Brasílio Marcondes Machado, que instalou ali a Casa de Saúde Bela Vista. Comentava-se que, no vasto terreno, estava enterrado um grande tesouro desde a época dos bandeirantes, mas que o médico Dr. Brasílio ganhou mesmo muito dinheiro com seu trabalho, casando-se três vezes, sendo que na última vez com a noiva do seu filho.

Em 1944, a Casa de Saúde foi vendida para o Instituto Achê, que era dirigido pelos doutores Solano Pereira e Mário Yahn, permanecendo como sanatório. Em 1977 a propriedade mudou novamente de dono, passando a ser do advogado Flávio Solano Pereira. Posteriormente, em 1982, a Casa Grande foi tombada como Patrimônio, mas nunca foi restaurada. Pouco resta atualmente da sede da chácara. No local, há carros estacionados e o terreno alvo da especulação imobiliária, sendo listado como um dos dez mais caros metros quadrados da cidade.

Infelizmente, da Casa Grande, sede da família fundadora e formadora do Bairro do Itaim Bibi, restam teimosamente alguns pedaços ou tocos das paredes, tudo em ruínas, num amplo terreno, originalmente quase todo ocupado por belíssimas, centenárias e frondosas árvores, espécimes da Mata Atlântica, além das frutíferas e ornamentais. O seu espaço é avidamente explorado como área de estacionamento para carros, desprezando-se a idéia do então prefeito Jânio Quadros, de transformá-lo em Parque Municipal para a implantação da Praça do Itaim, quando, por lei municipal, torna-o de utilidade pública (D.O. 05/04/88), após o ataque a base de marretadas, sob a desculpa de suposta restauração, feita pelo Grupo Selecta.

Num dia desses do ano de 2005, incógnito, fui ver o que restava dos 13 mil metros quadrados, da área total e que deveria se transformar em área de lazer, de eventos culturais e de contemplação. Confesso que fiquei chocado. Além dos carros estacionados por mais de 80% da área, consegui visualizar esparsos e destruídos pedaços das paredes de taipa, mau cobertas por uma lona plástica rasgada. Acredito que, da Mata Atlântica e do denso e magnífico pomar anteriormente existente, restaram resquícios, isso mesmo, além dos 8 a 10 pés de pequenas jabuticabeiras, com as negras, doces e deliciosas frutinhas. Uma desgraça, um crime ambiental, urbanístico e arqueológico.

Colhi jabuticabas e as provei diretamente dos pés remanescentes, talvez de áureas épocas. Além disso, contei quase o mesmo número de palmeiras, desde os altivos coqueiros gerivás, com seus enormes cachos de coquinhos amarelos, até outras palmeiras nativas listadas e descritas no livro Sertorum Palmarum de Barbosa Rodrigues. Notei duas ou três árvores de magnólias, resistentemente floridas e raros espécimes botânicos exóticos. Não consegui localizar as belíssimas e sociáveis jatais, abelhinhas negras e douradas, anteriormente de presença comum na região, e nem os seus característicos tubinhos de entrada e saída das colméias que deveriam estar entrevadas nos ocos das árvores restantes, assim espero. Ufa, consegui ver uma pequena coluna parecendo-me antigo suporte para as floreiras e no chão, raros tijolões, pasmem inteiros. E pensar que cheguei a ajudar em dias festivos, as missas celebradas na capela do Sanatório Bela Vista, na década de 1960, pelo Frei Constâncio, vigário da Igreja de Sta. Teresa de Jesus, e como pagamento tinha o direito de colher e comer jabuticabas e outras frutas de um imenso pomar.

Verifiquei, em cópia de documento existente na sexagenária Biblioteca Infanto-Juvenil Anne Frank, que existe um projeto de restauração da arquiteta Helena Saia, desde 1999 e que ocuparia uma área de apenas 2 mil metros quadrados, portanto parte da área total e tombada pela prefeitura desde 1982. A proposta de Júlio Neves, em 1999, colocava a restauração da casa em troca da cessão de parte do terreno para a construção de dois espigões com área comercial e centro cultural, tendo aprovação do CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico) e DPH (Departamento do Patrimônio Histórico), desde 2000.

Várias ações foram impetradas aos seus proprietários, entre eles, Naji Nahas & RMC Finança Investimentos S.A, este com sede em Portugal, mas nunca cumpridos. Existe uma ação de 1997, na 35ª Vara da Justiça Civil/SP. Também, em 2002, o promotor Marcos Destefenni convocou os proprietários, através dos seus advogados, mas nada foi levado adiante, até agora. O jornal O Estado de São Paulo, em 13/10/2002, adverte: “…escondida, Casa Bandeirista ameaça ruir”.

Em consulta ao CEDI (Cadastro de Edificações), PMSP/SEMAB, de 04/04/06, o imóvel, propriedade da Comercial Bela Vista S/A, logradouro da Rua Iguatemi, nº 09, consta como: edificação com situação irregular.

No 1º Passeio pelo Itaim Bibi, realizado em 8 de abril de 2006, o Grupo Memórias do Itaim Bibi (GMIB), em conjunto com o Grupo Viva São Paulo (VivaSP), tentou visitar e documentar o que restava desse sítio arqueológico. Porém soube-se que a área particular tombada estava inacessível ao público, visando sua preservação. Por incrível que possa parecer, abriga em dias normais, concorridos estacionamentos de três diferentes e conhecidas empresas do ramo, com exclusivas e identificadas entradas e saídas pela Rua Iguatemi, pela Avenida Horácio Lafer e uma outra pela nova Av. Brigadeiro Faria Lima.

Coincidência. A reportagem com fotos e textos no jornal Folha de São Paulo, em 16 de abril de 2006, apontou a nossa Casa do Itaim Bibi, a Casa Bandeirista, como um dos 37 sítios arqueológicos existentes na capital, fazendo parte de uma lista de 64 para toda grande São Paulo, necessitando de tomadas de medidas urgentes para preservação do que ainda possa restar. Continuando, a mesma reportagem, baseada em levantamento feito pelo arqueólogo Paulo Zenettini para seu doutorado na USP, afirma que: “no subsolo do Itaim Bibi, em área nobre da cidade, há recursos arqueológicos a serem preservados”.

Segundo afirmam os mais antigos moradores do bairro, relembrando as histórias contadas pelos seus pais e avós: “prédios, espigões residenciais e comerciais, foram e estão sendo erguidos sobre restos arqueológicos indígenas e de um suposto cemitério da época da escravidão”.

Porém, todos esses valores arqueológicos, históricos e de memórias vão sendo desprezados e paulatinamente destruídos. Atenção, colaboradores e amigos, qualquer notícia dessas peças memoráveis, de supostos achados arqueológicos, etc., entrem em contato com o G.M.I.B. ou com o Departamento de Arqueologia da USP. A esperança não morre, persiste.

Conhecer para preservar. Descubra e divulgue as memórias do seu bairro. Participe do segundo passeio no Itaim Bibi. Colabore com o Grupo Memórias do Itaim Bibi.

Autor: Helcias Bernardo de Pádua, 60 anos, do Posto do AcessaSP do bairro de Itaim Bibi, São Paulo – SP.

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