Por Saulo Garroux (leia-se Garru) -> Da equipe da Rede de Projetos do AcessaSP, Escola do Futuro da USP

Meu tema favorito é a Casa do Zezinho, por pertencer a ela física e espiritualmente. Sou um dos fundadores orgulhosos dessa ONG. Orgulhoso pela amizade de crianças e jovens que conquistei aqui no Parque Santo Antônio, periferia zona sul da capital, onde se localiza nossa organização Casa do Zezinho.


Hoje são 1.200 jovens e crianças que freqüentam nossa organização diariamente. Há treze anos atrás, quando começamos em 1993, com 12 crianças, não imaginávamos o acréscimo de mais dois dígitos nesse número.

Nossa organização é totalmente voltada para temas ligados à educação, arte, cultura e preservação e garantia do desenvolvimento humano, e contém, na sua sementinha criadora, a indignação de alguns educadores com a situação desumana a que sempre estiveram sujeitas crianças e jovens de baixa renda da periferia de São Paulo e, por que não dizer, do Brasil inteiro.

É nesse contexto da adversidade, da ruptura e da descontinuidade que surge e se fundamenta a Casa do Zezinho, instaurando um discurso pedagógico fundamentado na prática da trincheira e da resistência. Uma casa da possibilidade do sonho feita de imagens, educação e amor.

Fotografia

No começo do ano, recebemos na Casa do Zezinho JR, um fotógrafo francês que poderíamos chamar de um observador de sua época, do centro urbano às profundidades dos guetos na periferia de Paris. JR converte seus cliques em cartazes e transforma as ruas em galerias universais a céu aberto.

Em seguida a uma primeira exposição ?selvagem? realizada em 2004 sobre os muros da cidade de Bosquets, em Montfermeil, em Seine-Saint-Denis, JR decidiu no ano seguinte instalar sua objetiva 28 mm em pleno coração dessa vila.

O trabalho em colaboração com Ladj Ly, editado pela Editions Alternatives, www.editionsalternatives.com, é um belíssimo livro: ?28 millimètres, portrait d´une génération?. São retratos dos jovens moradores de La Forestière, centro dos eventos violentos ocorridos na periferia durante o outono de 2005, muito divulgado pela mídia internacional. Numa intensa explosão de energia, quando jovens queimaram carros e quebraram tudo o que viam pela frente.

Os retratos, grandes como outdoors, foram expostos sobre as ruas de Paris, na zona oeste, nos últimos quarteirões populares da cidade. Com uma certa impertinência, eles provocam os transeuntes e questionam a representação social e mediática de uma geração que não pode ser vista no centro de Paris ou na televisão.

JR: ?essas colagens são instantes que revelam a cultura que nos envolve. Colando minhas fotos nas ruas, a arte se instala em frente ao espectador. Quero com isso mostrar às pessoas como elas são, com a sua violência, sua sensibilidade e claro, sua energia?. Seu site na internet: www.jr-art.net.

JR já conhecia nosso trabalho através de amigos em comum e também pelo nosso site na internet. Depois de uma troca de diálogos, desembarcou aqui para registrar com a sua câmera a Casa do Zezinho e seu modo de vida nos becos e vielas das favelas do Campo Limpo, Jardim Ângela, Parque Santo Antônio e Capão Redondo, o famoso ?triângulo da morte? como é pejorativamente tratada pela mídia nossa região.

Esta semana ele nos enviou encadernadas, com muito cuidado, as fotos, com a proposta de fazer, em breve, uma exposição na favela para que as crianças e jovens possam observar, no seu próprio meio, sua imensa energia e boa vontade para a vida. As fotos do Capão já podem ser vistas no seu site.

Energia na França e aqui
O livro tem o prefácio do escritor Vicent Cassel, do qual reproduzo alguns trechos:

“Falamos de energia. De energia vital, energia da revolta ou energia do desespero… (…)

Em 2005 assistimos no mundo todo jovens ocupando as ruas da periferia de Paris para se fazerem entender. O acontecimento produziu prontamente um efeito de eco que repercutiu por todos os quarteirões da França; uma vaga que se estendeu por toda a Europa. Com um discurso bastante caótico, o que na verdade queriam esses jovens além da vontade de serem compreendidos? Porém, perguntamos, somente o fato de terem promovido esse confronto espetacular já não é o suficiente para eles serem levados a sério?

Há uns dez anos atrás, saindo da filmagem de um filme intitulado ?A raiva? eu estava persuadido que a situação nesses quarteirões da periferia conduziria a uma revolução, que esses jovens invadiriam o centro de Paris para tomar tudo aquilo que eles não tinham como direito, produtos que eles assistiam pela TV. (…)

Nesse contexto onde, de todos os lados, os mais maus intencionados tentam destilar suas propagandas religiosas radicais ou de extrema direita, não podemos misturar as estações e sim olhar nosso jovem nos olhos.”

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