Por Carlos Ogawa
Ilustrações Danielle Joanes

A cidade de São Paulo de séculos atrás não era conhecida pelo cinza do concreto ou pelo preto do asfalto. Muito pelo contrário, era uma cidade úmida, bem pantanosa, com os rios em volta da cidade e muitos córregos.

Ponte Grande e Ponte PequenaSe ainda hoje a água invade casas, antes formavam-se grandes lagos e pântanos nas partes baixas, como a região em que hoje está o bairro do Pacaembú. Os rios e córregos que hoje correm por baixo da cidade estavam todos na superfície, e os rios Pinheiros e Tietê ainda contavam com seus contornos cheios de voltas.

O Tamanduateí, por exemplo, era conhecido como o rio das sete voltas. Ora, o que é mais necessário em uma cidade cercada por rios e córregos do que uma grande quantidade de pontes? E realmente, das poucas construções dos séculos XVI, XVII e XVIII que conhecemos, as pontes destacam-se pela importância. Ainda hoje a cidade possui muitas pontes, agora chamadas viadutos, gigantes de concreto que nem sempre são usados para atravessar rios.

As pontes de antigamente eram muito mais humildes, como a história das duas mais famosas pontes de São Paulo: Ponte Pequena e Ponte Grande.

Até pouco tempo atrás, cerca de dez anos, a estação Armênia do metrô era chamada de ?Armênia ? Ponte Pequena?. Ainda hoje, existe o bairro da Ponte Pequena, próximo ao Bom Retiro. A Ponte Pequena cruzava o rio Tamanduateí e era caminho para a Ponte Grande que, por sua vez, cruzava o Tietê.

A Ponte Grande foi, na verdade, o nome de várias pontes construídas no mesmo local ao longo dos séculos. A primeira Ponte grande foi construída em 1675. Vinte e cinco anos depois, em 1700, outra ponte já havia sido construída, desta vez pelo empreiteiro Capitão Mor Isidoro Tinoco de Sá, a um custo de 160$000 (cento e sessenta mil réis).

A manutenção das pontes não deveria ser lá muito boa, pois já em 1725 os habitantes de São Paulo reclamavam que as pontes da cidade estavam intransitáveis, entre elas a Ponte Grande.

É preciso lembrar que as pontes eram todas de madeira, o clima da cidade era extremamente úmido (bem diferente da secura que temos hoje em certas épocas do ano) e, além disso, as enchentes do Tietê eram violentas e imprevisíveis, e por isso a madeira apodrecia com facilidade.

A Ponte Grande permaneceu nesse estado precário até que o padre jesuíta José de Moura propôs à Câmara Municipal construir uma nova ponte, em um curto prazo de três meses. Felizmente, nós temos uma descrição da ponte em um relato da época: ?com boas e admiraveis maderias, com grossura muy capaz de resistir ao tempo, tanto por serem os tanchoins de ubá mirim como tambem os tranversais deles serem do esmo pau e os taboens todos de canela preta e pregaria forte e a dita ponte em tudo muito bem fabricada? (ortografia da época).

Essa ponte, aparentemente, durou até o final do século, quando foi construída uma outra, desta vez com sua base de alvenaria (com tijolo e cimento, em vez de apenas madeira). A cidade começava a virar metrópole.

Foi em torno dessa ponte que nasceram os grandes clubes esportivos de São Paulo no começo do século XX (antes ainda da Era do Futebol), como o clube Hespéria e o clube Tietê, que ainda existem no mesmo lugar desde aquela época, embora o rio tenha mudado de contorno e não passe mais pelos clubes.
O principal esporte era o remo e as competições se davam no rio Tietê, com espectadores nas margens e também sobre a Ponte Grande.

A história centenária da Ponte Grande acabou quando foi demolida para a construção da Ponte das Bandeiras, na década de 40, junto com a retificação do rio Tietê, na gestão do prefeito Prestes Maia.

Referências:
Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo
JORGE, Janes. Tietê, o rio que a cidade perdeu: o Tietê em São Paulo ? 1880/1940. São Paulo: Alameda. 2007.
TAUNAY, Afonso de Escragnolle. Engenharia Colonia Paulistana. Anais do Museu Paulista, vol. 12, 1948.

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