Por Robson Leandro da Silva
Ilustração: Danielle Joanes

Briga na passagemEm qualquer lugar onde vivem duas ou mais pessoas em casas diferentes haverá sempre um fator que, mais cedo ou mais tarde acaba vindo à tona: briga entre vizinhos.

Quem nunca presenciou uma, já deve ter ouvido falar ou ainda verá, em algum momento de sua vida, a seguinte situação: duas pessoas (ou mais), que vivam calmamente, em um dado momento brigam, geralmente, por algum motivo que acreditam estar sendo prejudicadas pela outra parte.

Na história de São Paulo isso não podia ser diferente. Lendo documentos antigos da câmara de vereadores da cidade encontramos diversos relatos de brigas entre vizinhos. O relacionamento entre os cidadãos era muito complicado. Se hoje já é complicado resolvermos uma questão envolvendo um vizinho, imagine como era no começo do século XIX? Várias vezes quem tinha que resolver o problema era a câmara de vereadores, que se tornava um verdadeiro tribunal.

Em 1831 houve um caso de briga entre vizinhos que envolveu toda a comunidade. Um cidadão chamado Marciano Pires de Oliveira morava perto da região onde hoje conhecemos como Vale do Anhangabaú. Ali havia um córrego que levava o mesmo nome do vale e que continha vários acessos. Segundo Marciano, um desses acessos que ficava bem ao lado de sua residência estava servindo como local para os ladrões da época se esconderem. Nesse mesmo lugar também estariam se escondendo escravos que fugiam de seus senhores.

O sr. Marciano solicitou então à câmara de vereadores que fosse fechado o acesso que ficava ao lado de sua casa. Mas, durante a audiência pública para analisar o pedido do morador, houve uma reação contrária. Sua vizinha, d. Maria Rosa da Anunciação, acusou o vizinho de estar mentindo e revelou o que seria o real motivo do pedido de Marciano. O reclamante queria, na verdade, a exclusividade da passagem em questão para que só ele pudesse ter acesso à água do rio, e não por medo de bandidos ou dos escravos fujões.

A discussão começou a ficar feia, com cada um querendo defender o seu lado. Marciano acusou Maria de querer acobertar os bandidos e de ser simpatizante dos escravos. Por sua vez, Maria acusou Marciano de se antecipar à decisão da câmara e já estar causando problemas para quem desejava passar por aquele caminho.

Diante da confusão que se armou, os vereadores ficaram confusos, sem saber para quem dar razão. Depois de estabelecerem a ordem, decidiram que o caminho devia ficar aberto como sempre foi, pois assim estariam garantindo o direito das pessoas de passar por aquele local sempre que precisassem e também que pegassem água ali sempre que quisessem.

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