Por Carlos Ogawa
Ilustração Danielle Joanes

Apparicio Torelly, o Barão de ItararéRecentemente, coisa de dias atrás, vi um comercial no qual um famoso apresentador de TV falava a seguinte frase para anunciar o produto:

? ? De onde menos se espera…. daí é que não sai nada mesmo.?

A frase é uma engraçada inversão de um outro ditado popular muito conhecido, e que é tradicionalmente atribuído a um grande humorista brasileiro, o Barão de Itararé. Ele foi o maior humorista nacional entre as décadas de 30 e 60 do século XX.


Em seus jornais e seus Almanhaques apareciam frases que são lembradas até hoje, como:

? ? O erro do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta.?

? ? Quando pobre come frango um dos dois está doente.?

? ? As mulheres de certa idade nunca são de idade certa.?

O Barão de Itararé foi, na verdade, o jornalista Apparício Torelly, nascido em Rio Grande no Rio Grande do Sul, em 1895. Torelly teria se tornado médico em vez de jornalista, caso não houvesse sofrido um derrame que o fez desistir da faculdade de medicina.

Em 1925, depois de ter trabalhado por algum tempo como jornalista no Rio Grande do Sul, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Já em 1926, fundou o jornal ?A Manha? (sem acento mesmo), paródia de ?A Manhã?. Na época, Torelly assinava seus artigos como ?Apporelly?.

Durante todos os anos de produção jornalística, teve a companhia de Guevara, seu ilustrador e parceiro nas piadas, grande responsável arte gráfica e pela maior parte das ilustrações.

A personagem Barão de Itararé surgiu após a Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o governo através de um Golpe de Estado. Pouco antes de Getúlio tomar o poder, esperava-se um grande confronto militar entre as forças favoráveis a Getúlio e as tropas federais do presidente Washington Luís na cidade de Itararé, sul do Estado de São Paulo.

Pouco antes da esperada batalha, Washington Luís foi deposto, e Aporelly, com seu bom-humor, proclamou-se Conde de Itararé, em homenagem à famosa batalha que não aconteceu, apesar das expectativas de todos. Em seguida, rebaixou-se para Barão, por modéstia.

O jornal ?A Manha? circulou entre as décadas de 20 e 50, mas nunca conseguiu se manter nas bancas por muito tempo. Além das inúmeras dificuldades financeiras, a perseguição política, sobretudo durante o Governo Vargas, faziam com que o jornal parasse de circular. A perseguição ao jornal rendeu até uma história engraçada. Certa vez, ainda na década de 30, invadiram a redação d?A Manha, espancaram o Barão e quebraram os equipamentos. No dia seguinte, Torelly providenciou uma placa e a colocou na porta, onde estava escrito: ?Entre sem bater?.

Mas não devemos ser enganados pelo Barão, personagem do humorista. Torelly era militante político, sempre atento à população pobre, integrante do Partido Comunista e chegou a vereador pela cidade do Rio de Janeiro, com o slogan: “Mais leite, mais água, mas menos água no leite ? Vote no Barão de Itararé, Apparício Torelly.”.

Publicados hoje temos os três Almanhaques d?A Manha (1949 e do primeiro e segundo semestres de 1955). Era comum, na época, a publicação de almanaques de curiosidades, com horóscopos, dicas de cozinha, costumes, notícias do Brasil e do exterior, além de contos.

O Almanhaque do Barão tinha dicas de comportamento para penetras em festas, ?notícias? do exterior e até mesmo uma genealogia fantástica do Barão de Itararé. No pé de cada página havia sempre uma frase no formato de ditados populares, mas sempre transformada em piada. A personagem do Barão protagonizava algumas das propagandas dos Almanhaques. Isso mostra que o Barão, além de grande humorista, era também bom publicitário.

Apesar da distância que nos separa dos Almanhaques, ainda vale a pena passar em uma boa biblioteca pública e procurar pelas obras do Barão. Com certeza a visita renderá boas gargalhadas.

Referências

Releituras
Wikipedia
La Insignia
Câmara de Deputados do Rio de Janeiro
Espaço Acadêmico

TORELLY, Apparício. ALMANHAQUE. Primeiro Semestre de 1955. São Paulo: Edusp, Studioma, Imprensa Oficial. 2002. (Edição fac-similar).

TORELLY, Apparício. ALMANHAQUE de 1949. São Paulo: Edusp, Studioma, Imprensa Oficial. 2003. (Edição fac-similar).

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