Por Carlos Ogawa
Ilustração: Danielle Joanes

Casa da antiga Vila de são PauloRelembrando o aniversário da cidade, dia 25 de janeiro, que tal saber como eram as casas da pequena Vila de São Paulo? Esta pequena vila foi transformada em cidade apenas em 1711, e nem por isso deixou de ser pobre.


Na época, a parte mais importante da colônia portuguesa na América era o Nordeste. Quem leu o texto do Robson sobre a cama do senhor Amâncio (não leu? Leia!) sabe que até uma simples cama provocava um grande rebuliço.

Ora, e como moravam os paulistas da época? Ao contrário de outras cidades antigas do país, São Paulo não tem aquelas casas de estilo português que vemos, por exemplo, em Salvador ou Ouro Preto. Um dos jeitos de saber é ler os inventários da época.

Para quem não sabe, um inventário é uma lista de pertences que se faz quando uma pessoa morre. Nos inventários dos habitantes da vila de São Paulo, há pequenas descrições das casas paulistas da época. Descrições como esta aqui, do inventário de Bento Pires Ribeiro, de 1669:

?(…) moradas de casas de dois lanços de taipa de pilão cobertos de telha, com seu repartimento tabuado e um meio sobradinho com seu quintal.?

Achou a descrição difícil? Pois vamos traduzir!

O Lanço: a palavra ?lanço? era usada para qualquer fileira de aposentos da casa, o que no caso, quer dizer que a casa do senhor Bento possuía duas fileiras de aposentos.

A taipa: como já foi dito, São Paulo era muito pobre, e por isso as casas eram feitas de taipa de pilão. Uma casa de taipa é feita com uma estrutura de madeira e preenchida com barro; se o barro é colocado com a mão, chamam de taipa de mão, se é batida com pilão, chamam de taipa de pilão. Casas de alvenaria, com tijolo, cimento e tudo o mais, só apareceram em São Paulo quase três séculos depois da sua fundação (em 1554).

As telhas: o teto das casas eram feitos de duas formas: com palha, como faziam os índios, e com telhas. Não é preciso dizer que a casa com telhas eram mais resistentes que as de palha, mas também eram mais caras.

As táboas: o chão tabuado era coisa rara nas casas da época também. A maior parte das casas tinha seu chão de terra batida, e apenas algumas (as mais ricas) tinham piso de táboas, e mesmo assim apenas em algumas partes da casa, como a capela.

O sobradinho: e tem um sobradinho no final da descrição; mas a palavra quer dizer apenas um espaço que sobrou, e não uma casa com dois andares, como se fala hoje em dia.

Só de ver a descrição da casa, já percebemos a diferença que há entre as casas da vila para as casas da atual metrópole de São Paulo. E olha que a casa de Bento Pires Ribeiro não era das mais pobres!

O material frágil com os quais as casas eram feitas fez com que poucas dessas casas sobrevivessem ao tempo, e a maior parte delas foi demolida e substituída por construções de tijolo e cimento.

Na cidade de São Paulo ainda existem algumas, que estão abertas à visitação. Uma delas é a chamada casa bandeirista (ou do Bandeirante) que fica no Butantã. Há outra no Centro Cultural do Jabaquara. E não pense que é só na capital. Há muitas no interior também.

Você já conhece uma dessas casas? Não deixe de visitar uma!

Referências
Lemos, Carlos Alberto Cerqueira. Casa paulista : história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café. São Paulo : EDUSP, 1999.

Bruno, Ernani Silva. Equipamento da casa bandeirista segundo os antigos inventários e testamento. São Paulo : Departamento do Patrimônio Histórico, 1977.

Links:

Museus e Casa Históricas de São Paulo – Casa do Bandeirante

Museus e Casa Históricas de São Paulo – Casa do Sítio da Ressaca

Compartilhe!
Tagged with:  

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Current month ye@r day *