Por Robson Leandro da Silva
Ilustração Danielle Joanes

Pedro Alvares e sua esposaEle tinha 32 anos, era alto, elegante e educado. Costumavam dizer que ele parecia muito com o pai que era conhecido como ´´gigante da Beira´´ por conta de sua estatura. Era descendente de uma família de nobres militares o que forçou-o a tornar-se mestre nas artes guerreiras. Formado em humanidades pelas cortes de Lisboa, era tido como um dos mais hábeis negociadores da corte do Rei D. Manuel. Era casado com Izabel de Castro, principal camareira da infanta Dona Maria.

Conhece esse homem? Não? E se a descrição acima fosse trocada por uma simples afirmação: ele descobriu o Brasil.

Sim, estamos falando de Pedro Álvares Gouveia, o homem que descobriu o Brasil. Estranhou o nome? Ele só assumiu o sobrenome Cabral depois da morte do irmão mais velho em 1503. Segundo a tradição da época, o sobrenome só poderia ser utilizado pelo filho mais velho. Mesmo sem nunca ter entrado num barco antes na vida, foi escolhido pessoalmente pelo rei para capitanear a maior operação marítima já realizada até então. Iria comandar treze caravelas e mais de 1200 homens. Seria, mais ou menos, como colocar um padeiro como maquinista de um trem lotado de passageiros.

Porque ele foi escolhido? A responsabilidade era muito mais política do que técnica. Já vimos que ele era bem nascido. Sua família tinha trânsito livre na corte. Também pesou na escolha o fato de que, em matéria de negociação, ele era um dos melhores de Portugal. Um dos objetivos da missão, além de chegar a Índia e fazer contatos diplomáticos com os governantes de lá, era verificar as terras portuguesas que foram conquistadas com o tratado de Tordesilhas.

Então como Cabral, sem conhecer nada de navegação conseguiu fazer uma viagem tão importante? Vasco da Gama, que era seu grande amigo, havia conseguido fazer um novo caminho para as Índias. Ele escreveu um manual de como navegar pelo oceano Atlântico especialmente para Cabral.

Depois de chegar ao Brasil, Cabral seguiu para a Índia, onde enfrentou uma guerra com os mulçumanos por causa do comércio de especiarias. Numa dessas batalhas morreu Pero Vaz de Caminha, o homem que escreveu o relato sobre a chegada da missão portuguesa ao Brasil. Além dos conflitos, foram perdidas na viagem cerca de 600 homens e sete das treze caravelas que saíram de Portugal. Mesmo assim ele conseguiu fazer alguns acordos com os líderes de Calicute e voltou para Lisboa com especiarias cujo valor era equivalente a três vezes o custo da missão.

Porém, ele foi recebido com frieza e indiferença na volta. Curiosamente não foi reconhecido como herói. Prova disso é o fato de que, em 1502, o rei chamou Vasco da Gama para o posto de comandante. Decidiu abandonar a corte e voltou para cuidar de suas terras no norte do país e de seus filhos, ignorando a importância que só lhe seria dada séculos depois.

Morreu em 1520 e foi enterrado no mesmo túmulo de sua mulher onde estava escrito: ´´Aqui Jaz Pedro Álvares Cabral e sua mulher, dona Izabel de Castro, camareira-mor da corte´´, sem sequer citar qualquer uma de suas funções anteriores. De grande comandante e descobridor de um país, morreu como o marido da camareira.

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