Banco de Cartografia Histórica Digital vai garantir acesso universal a uma importante coleção de mapas antigos

Um projeto realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) vai garantir acesso universal a uma importante coleção particular de mapas antigos e, ao mesmo tempo, criar soluções para desafios impostos à cartografia histórica pelas novas tecnologias de digitalização.

Em 2006, a coleção de obras de arte e documentos raros de Edemar Cid Ferreira – um dos maiores acervos particulares do tipo no mundo – foi tombada pela Justiça Federal durante o processo contra o ex-banqueiro. Parte da coleção, contendo cerca de 380 mapas antigos, além de gravuras e textos de cordéis, ficou sob custódia temporária do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

Digitalização dos mapas

A fim de garantir o acesso público aos mapas, a equipe do Laboratório de Estudos de Cartografia Histórica (Lech) está desenvolvendo um projeto de construção do Banco de Cartografia Histórica Digital, que terá acesso aberto pela internet. O banco terá mapas digitalizados da coleção do Banco Santos, do IEB e da Biblioteca Mindlin.

De acordo com a coordenadora do Lech, a professora Iris Kantor, do Departamento de História da USP, desde que o IEB obteve a custódia da coleção do banco (que teve falência decretada em 2005), o grupo tem se dedicado a restaurar, catalogar e digitalizar os mapas. Iris descreveu o projeto durante palestra apresentada no dia 18/6, no seminário Livros, Leituras e Novas Tecnologias, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista.

“Ainda persiste a possibilidade de que as peças sejam requisitadas para quitar dívidas deixadas pelo banco. Por isso, fizemos a digitalização dos mapas a toque de caixa, a fim de garantir que a coleção tenha uma destinação pública, com acesso universal”, disse Iris à Agência FAPESP.

Base cartobibliográfica

Segundo ela, o projeto coordenado pela professora Laura de Mello e Souza – também do Departamento de História da USP -, teve início com a aquisição da base cartobibliográfica do almirante Max Justo Guedes, em 2005, antes mesmo do tombamento da coleção de Ferreira.

“Essa base, que serviu de inspiração para o projeto, consiste em cadernos de notas de mais de 60 anos de pesquisas feitas pelo almirante sobre cartografia histórica. Quando recebemos essa doação buscamos apoio da FAPESP e, em seguida, conseguimos a custódia da coleção do Banco Santos. O principal produto do Projeto Temático será uma base de dados digital que integrará mapas e referências bibliográficas”, explicou.

Iris conta que, ao ser recebida em 2006, a coleção do Banco Santos precisou ser tratada durante um ano pelos técnicos do IEB, para restauração e higienização. “Esses documentos estavam em péssimo estado, em um galpão, quando foram recolhidos pela Polícia Federal. Em seguida, o IEB digitalizou os mapas e o projeto teve início”, disse.

Segundo ela, no entanto, apenas um terço da coleção pertencente ao banqueiro chegou de fato à USP. O paradeiro do restante dos documentos é desconhecido. “Agora, corremos o risco de perder a coleção, assim como as outras unidades da USP que receberam partes do acervo. Vamos lutar para mantê-lo, já que a universidade investiu muito no acondicionamento e no restauro das obras. Mas o mais importante é que os estudiosos terão o acesso digital garantido”, afirmou.

Biografia social dos mapas

Além dos pesquisadores ligados ao projeto, a equipe envolvida com o Lech inclui pesquisadores do IEB, da Biblioteca Brasiliana, do Centro de Informática de São Carlos (Cisc) – também da USP -, além de parcerias com o Sistema Integrado de Bibliotecas da USP, a Cátedra Jaime Cortesão, o Centro de Documentação do Atlântico (Cenda) e outros centros.

“O projeto trabalha com a formação do imaginário imperial português. Estudamos qual é o papel dos mapas na construção da imagem dos territórios coloniais na Europa. E como as imagens são suporte dessas identidades imperiais. O objetivo é estudar o papel dos mapas na cultura imperial e na sua expansão sob o ponto de vista do pensamento”, disse Iris.

Segundo ela, a revolução tecnológica que permite a digitalização dos mapas cria uma tensão com a dimensão crítica da cartografia histórica. “Com os dados sendo despejados na internet livremente, é preciso ter senso crítico ao tratá-los. Existe cada vez mais necessidade de ter esses mapas associados a informações fidedignas que permitam interpretar o contexto social em que foram produzidos. Por outro lado, a disponibilização das obras digitalizadas cria novos desafios e campos de trabalho para os pesquisadores”, apontou.

Mapoteca digital

O Projeto, de acordo com a historiadora, pretende criar uma base de dados relacional capaz de se articular a outras fontes nacionais e internacionais.

“Queremos produzir uma mapoteca digital, com uma ferramenta de busca articulada com outras bases de dados de natureza tecnocientífica. Além das imagens cartográficas, o banco de dados disponibilizará uma cartobibliografia com verbetes preparados por consultores escolhidos pelo projeto”, disse.

A ideia, segundo Iris, é fazer uma “biografia” de cada mapa, inscrevendo-os em contextos sociais mais amplos. “Pretendemos superar as interpretações autorreferentes. O usuário terá ao seu alcance não apenas a imagem, mas o contexto que permitirá localizá-la na história da cartografia”, afirmou.

Do Inovação Tecnológica

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