Só monitores que inspirem a comunidade a se apropriar da tecnologia podem promover a inclusão digital

Patricia Cornils

ARede nº54 dezembro 2009 – “Aqui em Caldeirão Grande (BA) tem um telecentro que está sem funcionar por falta de instrutor. Gostaria muito que me ajudassem, indicando uma empresa que ofereça treinamento na Bahia ou vizinhanças. Aguardo retorno.” Este email foi enviado por Jorge Silva Macedo para a redação da revista ARede, no final de novembro. Assim como em Caldeirão Grande, muitos telecentros criados por todo o país sem o apoio de uma rede têm dificuldade para manter suas portas abertas, por falta de monitores capacitados para atender o público.

Este é um dos problemas que a Rede Nacional de Formação para Inclusão Digital pretende resolver. Parte do programa federal Telecentros.BR, essa rede será a primeira iniciativa de capacitação em escala nacional: prevê a formação, em um ano, de 10 mil monitores, sendo 8 mil bolsistas e 2 mil não-bolsistas, todos necessariamente de telecentros cadastrados no Telecentros.BR.

Mas o principal é que a rede vai articular metodologias e conteúdos existentes em todo o país, para criar um programa comum de formação. Isso vai contribuir com todos os projetos de inclusão digital, ao gerar uma reflexão nacional sobre a rica experiência de capacitação acumulada desde meados dos anos 1990, quando foram criados os primeiros telecentros brasileiros.

A formação de monitores é um segmento no qual o poder público e as organizações da sociedade civil envolvidas com inclusão digital investem muito. Somente no Acessa SP, programa do estado de São Paulo, foram capacitados, este ano, 1.058 monitores. Nos 513 postos em funcionamento no estado, trabalham 1.172 pessoas. A Bahia inaugura em dezembro o seu milésimo Centro Digital de Cidadania (CDC). Em cada unidade, mantida em parceria com prefeituras e entidades da sociedade civil, trabalham em média dois monitores. Representantes de CDCs de todos os municípios do estado se reuniram, em dezembro, para debater questões relativas à formação de monitores, em encontro organizado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação. Na ponta, essas pessoas estão aptas a produzir oficinas de acordo com os interesses da comunidade. Há mais de mil oficinas cadastradas no portal do projeto baiano, à disposição de todos.

Experiência acumulada

Os programas de capacitação, em todo o país, estabeleceram princípios mínimos para que um posto público seja mais que um local para usar a internet. Reforçaram o papel central dos monitores nos telecentros. Prepararam milhares de pessoas para ouvir o público e tratá-lo com respeito. A maioria trabalha com software livre e, pelo menos em tese, com a ideia de compartilhamento de conhecimento. E apresenta conceitos de cidadania aos monitores, tanto para engajá-los nos projetos de inclusão quanto para inserir os telecentros nas comunidades em que funcionam e fazer da tecnologia uma ferramenta a serviço de desenvolvimento local.

Mas não existe, hoje, um padrão do que seria a formação exigida para um monitor de telecentro, explica Beatriz (Beá) Tibiriça, da ONG Coletivo Digital, de São Paulo. Para ela, os editais da rede de formação e dos Telecentros.BR partem deste patamar construído no campo da inclusão digital e estabelecem que, a partir de agora, esse é o padrão para se ter um telecentro e para atender ao cidadão. “Não será aceitável menos do que isso”, avisa Beá. “Temos agora que escolher quais serão os novos caminhos e vigiar para que não haja recuos.”

O tipo de formação à qual Jorge Macedo, de Caldeirão Grande, se refere, ainda é necessário em boa parte do país. Em outros lugares, a própria experiência dos postos de acesso mostra que o público gostaria de saber um pouco mais. Hoje, a maior parte das capacitações é lastreada na aquisição de noções de informática para que os monitores ajudem o público a “chegar a um mínimo de usabilidade, operar as máquinas, usar um pouco de tecnologia” ou “atender necessidades básicas dos cidadãos, como pesquisar na internet, formatar textos, imprimir”. As frases entre aspas são metas, respectivamente, do NavegaPará (PA) e do Paranavegar (PR), projetos de regiões completamente diferentes do país.

Áudio e vídeo
Como eles, a maior parte dos processos de formação se concentra em repassar conteúdos fundamentais para o funcionamento dos postos. Mas a demanda muda a todo momento. “Curso de internet básica não pega mais”, observa Luís Ricardo Baziotti, monitor do Telecentro Comunitário Monte Alegre, em Pedreira, São Paulo. “A pessoa tem que ir direto para a internet, usar, consultar os assuntos que lhe agradam, serviços públicos, fazer blog, usar Twitter”, conta ele.

No NavegaPará, a Prodepa, gestora do programa, criou o NavegaTube, depois de constatar que a banda larga disponível para os infocentros é usada, sobretudo, para ver conteúdo multimídia e trocar informações. “Os usuários estão pedindo cursos de edição de áudio e de vídeo, para produzir seu próprio conteúdo”, constata Thiago Cardoso, responsável pela capacitação do Navegapará. O que era informática básica, há cinco anos, hoje não é mais. As pessoas são mais familiarizadas com o uso de menus, entre outras coisas porque aprenderam a usar aparelhos celulares. Sabem navegar na internet ou conhecem alguém que sabe. Sabem criar perfis no Orkut e criar redes, pelo menos de amigos e seguidores, porque aprenderam nas lan houses. A ideia de uso básico da rede muda conforme a tecnologia evolui e deixa desatualizados os conteúdos das capacitações.

Para acompanhar essa evolução, este conteúdo também se sofistica. Em alguns casos, avança no entendimento de sistemas operacionais e forma técnicos em software livre. Yuri Miller, 18 anos, fez na primeira semana de dezembro um curso de Linux no Pontão do Coletivo Digital, em São Paulo, estimulado pelos gestores do Ponto de Cultura Memórias do Olhar, da ONG Reino da Garotada de Poá. O Ponto trabalha com fotografia, edição de imagem e de vídeo e necessita de alguém para auxiliar na gestão técnica de seus computadores. “Posso contribuir com meu trabalho, como voluntário”, explica Yuri. Para ele, o curso é uma ótima iniciativa, porque proporciona o aprendizado técnico e também a formação como cidadão. “Conversamos muito, aqui, sobre o compartilhamento de conhecimento sem receber nada em troca, a não ser mais conhecimento”, explica. Sua única ressalva é a duração do curso. “O nível técnico é alto, mas uma semana é muito pouco”, constata.

Autonomia
A autonomia dos telecentros depende, em grande parte, da presença de pessoas capacitadas a lidar com a tecnologia de que dispõem. Mas um dos maiores desafios da capacitação não é tecnológico e sim o de dar instrumentos para que seus monitores sejam efetivamente agentes de inclusão. Para isso, não basta entender de computadores. É preciso criar processos que estimulem não apenas desenvoltura para lidar com a tecnologia, mas para ativar redes que usem os telecentros das maneiras mais variadas. “Aprender a usar computador é um meio, não um foco”, avalia Dalton Martins, coordenador de Tecnologia Social do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec) da USP. O Lidec faz a capacitação do Acessa SP. “Aprender para fazer o que? Para chegar onde? Para construir que comunidade, que sociedade?”, pergunta ele.

A resposta a essas perguntas depende de quem estiver usando o computador. Por isso, diz Dalton, a lógica dos cursos baseados no repasse de conteúdos não permite respondê-las. “É preciso pensar na lógica de ativar conversas, quebrar a ideia de passar um conteúdo específico e trabalhar para facilitar a emergência do conteúdo no encontro”, raciocina. “A forma de convite é outra, a forma de adesão é outra e isso define como as pessoas entendem a ação que desenvolvem e se apropriam dela.”

No Acessa SP, a capacitação do programa pretende incentivar e desenvolver a capacidade para identificar problemas, assim como a formulação de hipóteses, a busca de referências, processos decisórios, ações, reconhecimentos de resultados e reflexão de processos, considerando os níveis: individual, pequeno grupo, coletivo. Desenvolver a autonomia com responsabilidade e conhecimento, fazendo do trabalho um processo de aprendizagem continuada. Identificar as competências necessárias para o sucesso do projeto (administrativas, tecnológicas e de atendimento). A formação de uma rede (comunidade) colaborativa presencial e a distância entre os monitores, entre as comunidades e redes sociais em geral. Tudo isso levou à criação da Rede de Projetos, uma ação na qual os monitores são incentivados a criar, implementar, documentar e avaliar o sucesso de projetos de interesse de sua comunidade.

Parceria com o Senac
Rochelle Miranda de Paula, monitora do Acessa SP localizado no Centro de Integração e Cidadania (CIC) de Guarulhos, fez a capacitação e ficou “viciada em projetos”. Um deles, elaborado e realizado com a outra monitora do posto, Cláudia Amaral Souza, foi uma parceria com o Senac em que o CIC entraria com espaço físico, máquinas e internet e o Senac com um curso para preparar jovens entre 15 e 18 anos para entrar no mercado de trabalho. As meninas do posto incluíram aulas de informática no conteúdo do curso. “Percebemos a necessidade de atualizar o curso do Senac, que não abordava informática e uso da internet”, explicam Rochelle e Cláudia, que abriram as portas do posto para um professor ministrar as aulas extras de informática básica. O curso do Senac, com o conteúdo extra adicionado pelas monitoras, atendeu uma turma de 16 alunos com aulas de três horas, uma vez por semana. Três deles estão empregados, dois conseguiram bolsas em suas faculdades. Mas ainda não se sabe se o Senac vai repetir a experiência, apesar do desejo das monitoras e da diretoria do CIC.

Rochelle e Cláudia continuam criando projetos. Todas as sextas-feiras pela manhã, junto com um instrutor da Secretaria de Assistência Social, elas recebem uma turma de meninos entre 3 e 12 anos de idade, que vendiam doces nos faróis e que agora frequentam o telecentro. No Natal, preparam uma festa para distribuir presentes para as crianças que frequentam o posto. “Antes de fazer a capacitação, achava que meu trabalho era receber as pessoas e abrir os terminais”, diz Rochelle. “É bem mais que isso, e precisamos conhecer a comunidade para realizá-lo”, acrescenta Cláudia.

O projeto de Rosana Belló, monitora do Acessa SP de Pindamonhangaba, foi a criação de um blog para reunir artesãos da cidade. Pessoas que não têm computadores em casa passaram a frequentar o posto e aprenderam a fazer suas próprias páginas, reunidas no blog, onde há 25 artesãos. Rosana criou uma rede, onde as pessoas conversam sobre sua atividade e como formalizá-la, apresentam seus produtos, trocam informações. “Tive a ideia depois da capacitação, quando visitei uma feira de artesanato aqui na cidade”, recorda. “Também tive que aprender para fazer o projeto. Tive que pesquisar, fazer meu próprio blog, para poder mostrar. Até hoje estou aprendendo.”

O aprendizado constante é outra necessidade dos programas de capacitação. “Quanto mais você ensina e compartilha o seu conhecimento, mais você ganha”, diz Dennie Fabrizio, articulador do Projeto Puraqué, em Santarém (PA). “O Puraqué evoluiu muito durante todos esses anos, articulando e formando pessoas; desde quando era apenas um pequeno espaço na garagem da casa de um companheiro daqui, compartilhando o conhecimento de usar o computador, até se transformar em um coletivo que trabalha fortemente a cultura digital e o software livre nos vários projetos de inclusão digital desenvolvidos na região”, explica ele.

O Puraqué, como a maior parte das entidades que trabalha com capacitação em inclusão digital, é uma organização da sociedade civil. Sua metodologia de formação foi desenvolvida ao longo do tempo, mas seu foco sempre foi o uso da tecnologia para a transformação social. O Puraqué administra, em parceria com o Programa Saúde e Alegria, um Pontão de Cultura Digital em Santarém (PA) e realiza oficinas de apropriação de tecnologia e dos meios de comunicação digital na região Norte. Trabalha em comunidades ribeirinhas, escolas, associações comunitárias, infocentros, telecentros, projetos sociais e com programas do poder público.

Sua atividade é oferecer oficinas de metarreciclagem, produção gráfica, áudio e vídeo. Mas a meta verdadeira é dar pistas, para as pessoas, de como podem realizar mudanças sociais. O computador em rede, explica Dennie, é uma ferramenta que centraliza todos os meios de produção multimidiática e também uma ferramenta poderosíssima de aprendizado, comunicação, troca de ideias, armazenamento de informações. “As pessoas precisam sim entender isso, pois senão nossa sociedade não irá evoluir da forma como se almeja”, prossegue. “As oficinas são articulações para contaminar as pessoas com os princípios da cultura digital e da filosofia do software livre.”

Só consumidores?
De acordo com ele, muitos projetos de inclusão digital querem formar pessoas para o mercado de trabalho. Os princípios de compartilhamento do conhecimento e de apropriação dos meios de comunicação digital ajudam as pessoas a entender o que significa viver na era do conhecimento, na qual “o emprego é pouco, mas trabalho sempre tem, desde que se entenda que o conhecimento é o que move o mundo e não somente o petróleo, o minério, a madeira, os grãos, como sempre nos foi ensinado”.

Existe mais um motivo pelo qual os programas de inclusão precisam avaliar seus processos de capacitação. Hoje, os telecentros são fundamentais, porque nem a internet nem os computadores são acessíveis a todos os brasileiros. A própria indústria, no entanto, vai encontrar meios para fazer a “inclusão digital” das pessoas. Seus novos modelos de negócio dependem da existência do maior número possível de usuários, gerando dados para a rede, conforme explica o professor Alexander Galloway em entrevista nesta edição. A tecnologia está virando mato. Qual será, então, o papel dos milhares de postos nos quais o poder público, por demanda da sociedade, investe centenas de milhões de reais? Formar consumidores de serviços e produtos? A capacitação das pessoas que trabalham nos pontos públicos de acesso à internet é um componente básico da resposta a essas perguntas.

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