PCs antigos são usados para montar máquinas recicladas e equipamentos que não funcionam mais viram robôs.

Mirella Nascimento

A vida útil de um computador não termina quando surgem novas tecnologias. Com algum conhecimento de informática, automação e um toque de gambiarra, é possível “ressuscitar” equipamentos eletrônicos tidos como acabados.

Computadores velhos se tornam matéria-prima para outras máquinas, recicladas para uso numa sala de aula ou numa cooperativa. Um PC que não consegue rodar programas novos movimenta um pequeno robô feito com peças reaproveitadas. Celulares estragados, fios que não conduzem mais informações e relógios que não acertam mais as horas viram peças de artesanato e de arte.

Em oficinas organizadas pelo movimento MetaReciclagem em um dos prédios do Parque da Juventude, na Zona Norte de São Paulo, centenas de pessoas aprendem a “aproveitar melhor a tecnologia”.

“A gente trabalha com material que está sendo subutilizado. O lixo eletrônico só é lixo porque alguém não encontrou um jeito apropriado de utilizá-lo. Quando se encontra o modo harmônico de utilizar esse lixo, ele se transforma em material de oficina, de aprendizado, de desenvolvimento”, diz Ricardo Guimarães, de 21 anos, técnico em automação que faz parte do grupo.

O MetaReciclagem começou com uma lista de discussão em 2002. Das conversas virtuais, surgiu o movimento que se espalhou pelo Brasil. Sem sedes fixas, mas com presença em diversas cidades, o grupo recebe computadores e peças de artigos eletrônicos usados para montar laboratórios de informática – como o que ocupa um espaço do programa Acessa SP, do governo estadual, no parque da capital paulista.

Muitos computadores doados para o MetaReciclagem funcionam, mas ficaram defasados. “De dez computadores que chegam, se cinco funcionam mais ou menos, a gente consegue tirar material dos outros e montar um que funcione perfeitamente”, exemplifica Guimarães. As máquinas recicladas são doadas a entidades, organizações ou cooperativas que participam das oficinas.

Além de servirem para montar “novas máquinas”, as peças que ainda funcionam podem ser transformadas em robôs. Nas oficinas de robótica, os alunos aprendem sobre mecânica, eletrônica, software livre e programação. Quando não serve mais como peça de um equipamento eletrônico, a sucata digital vira arte na mão de pessoas como Glauco Paiva, que também ministra oficinas.

“O que não é reciclado a gente vai transformando em outras coisas. Trabalhamos muito com a gambiarra, com a vontade de cada um de produzir, com como a gente torna isso uma coisa bacana e devolve para sociedade com uma cara legal. Acho que essa é a grande pegada da oficina”, analisa.

Coletivo de designers aposta na gambiarra

Em Minas Gerais, um grupo de designers também usa a gambiarra para criar desde 2008. Em uma oficina de Belo Horizonte, o coletivo Gambiologia transforma lixo em diversão. Um dos objetos preferidos de Lucas Mafra, um dos integrantes do grupo, é um Atari Punk Console feito a partir de uma caixa de charutos. A caixinha, capaz de emitir sons semelhantes aos do videogame Atari 2600, tornou-se um clássico do “faça você mesmo”, com tutoriais divulgados em sites como o YouTube.

“A gambiarra é uma ode ao improviso e à livre invenção. Especialmente para nós, brasileiros, essa habilidade para reinvenção de objetos do cotidiano surge de forma muito natural”, analisa Fred Paulino, que classificou o momento atual de descentralização do conhecimento como “Período Gambiolítico”.

O grupo também vê a reciclagem de equipamento eletrônico como uma alternativa ao descarte. “Vivemos em uma cultura cada vez mais consumista, onde somos praticamente obrigados a ter equipamentos sempre atualizados. A Gambiologia é uma forma de repensar esse consumo, transformando resíduos em desuso em produtos funcionais ou não, mas sempre inovadores, com a estética gambiológica”, define o designer.

Do Portal G1

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