A força de vontade de quem enxerga o acesso à Internet como uma oportunidade de transformação social

Madalena convidou mulheres que vivem na zona rural para conhecer as possibilidades oferecidas na Internet. Muriel convenceu adultos recém-alfabetizados de que suas histórias de vida eram ricas e mereciam ser contadas pro mundo por meio de um blog.

Carol sempre teve facilidade para entender o mundo dos portadores de síndrome de down e, por este motivo, achou que o computador poderia ser uma excelente ferramenta de aprendizagem para eles. Sonia só queria plantar uma sementinha na cabeça das crianças de sua cidade – o amor pelo nosso planeta. E por que não usar a Internet para pesquisar mais sobre o tema e fazer os pequenos aliarem os estudos ao uso da web?

Embora inseridas em contextos diferentes, todas essas histórias partem da inclusão digital e da educação como meios para a transformação social. Elas também têm em comum o fato de pertencerem à Rede de Projetos do Acessa São Paulo, programa de inclusão digital do governo paulista, que tem 595 postos espalhados por todo o Estado.

Esta rede é um espaço criado para incentivar ações em benefício da comunidade. O conceito é simples e só depende da iniciativa e disposição dos integrantes. Qualquer pessoa que tenha uma ideia de projeto pode procurar o posto mais próximo, fazer uma parceria com o Acessa SP e utilizar a infra-estrutura do local, respeitando os limites e necessidades de cada região.

Dessa forma, há quatro anos a Rede de Projetos vêm gerando histórias de inclusão e solidariedade, com iniciativas que vão desde a introdução à informática para a terceira idade, passando pela orientação profissional de jovens, até a arrecadação de agasalhos no inverno, brinquedos no Dia das Crianças, ou mantimentos para vítimas de catástrofes, como a que atingiu no ano passado São Luis do Paraitinga.

No distrito de Pirambóia, que tem como sede a cidade de Anhembi, a 240 km da capital paulista, a estudante de Administração Madalena Carneiro resolveu colocar a mão na massa assim que se tornou monitora do posto, em 2008. Com nove projetos inscritos na rede, ela já ajudou crianças a melhorarem a escrita e a leitura com a criação de blogs, incentivou a profissionalização dos adolescentes da região por meio de uma parceria com o CIEE, fez diversas campanhas de arrecadação e foi até a zona rural procurar usuários interessados em conhecer a Internet.

O projeto “Mulheres Online” fez tanto sucesso que teve que abrir uma segunda turma. De acordo com Madalena, antes da chegada do posto na região, a cidade contava com apenas uma lan house, equipada com um único computador:

“Pirambóia é uma cidade muito pequena, foi o AcessaSP que trouxe a Internet para cá. As crianças e os jovens têm maior facilidade e logo saíram usando sem problemas. Mas notei que as mulheres tinham maior dificuldade, tinham receio, então tive a ideia do projeto”, explica.

Para ela, o objetivo inicial foi alcançado, que era promover a independência das participantes diante do computador: “Foi um resultado bem bacana, elas hoje enxergam a Internet como uma fonte de comunicação, de pesquisa, de informação. Isso mudou também a rotina delas, a qualidade de vida. A auto-estima também aumentou, porque hoje sabem acessar”, enfatiza.

Muriel reunido com os alunos do projeto “Conhecendo minha história”, em Pirangi-SP

Na cidade de Pirangi, Muriel Jairo Brefore, coordenador chefe do Acessa SP e do Telecentro Comunitário, também se mobilizou com a questão dos trabalhadores rurais. Só que, neste caso, a descoberta iria além do manuseio do mouse ou da habilidade com o teclado. Ele foi apresentado a uma turma de adultos que não tiveram a oportunidade de estudar e, por este motivo, frequentam um curso de alfabetização conduzido por uma professora da região.

Ela propôs uma parceria, imaginando estimular dois tipos de aprendizados em uma tacada só. Ele topou o desafio e o projeto entrou em ação. Os alunos que evoluíssem no aprendizado das letras também passariam a frequentar o posto, nas noites de terça-feira, para ganhararem também o mundo dos bytes.

“A inclusão digital pra este tipo de público só vai trazer benefícios. Tem muitas pessoas aqui que trabalham em usina e um aluno meu, de 75 anos de idade, tem medo de perder o emprego porque ele fala que tudo está sendo informatizado.”

Ao conhecer melhor as pessoas e suas histórias de vida, Muriel sugeriu uma outra novidade para a turma. Ele criou o blog “Conhecendo minha história” que, além de incentivar a escrita e a leitura, vem mexendo com os ânimos dos alunos: “O que eu tenho visto é que estes cursos os farão reconquistar a auto-estima. A nossa sociedade é muito preconceituosa e os analfabetos são vistos de outra forma. Eu quero mudar isso e ajudá-los nesse sentido”, ressalta.

Em meio a livros, sites e muitas descobertas

Crianças do projeto “Criança conectada inventa história”, sob o comando de Sônia Remenegildo, em Herculândia-SP

Sonia Remenegildo acredita que despertar a consciência ecológica no período da infância é a melhor forma de se trabalhar por um planeta melhor. Ela é monitora do posto do município de Herculândia e criadora do projeto “Criança conectada inventa história”, que já está em sua segunda turma.

Nos encontros, ela promove a discussão sobre temas ligados ao meio ambiente e estimula os alunos a desenvolverem composições com base nos assuntos abordados. Aproveitando que o posto da cidade fica ao lado da biblioteca, ela incentiva os estudos e a pesquisa via Internet:

“Eu sempre quis trabalhar com crianças, então achei que poderia unir as duas coisas, a Internet e os livros, de uma forma diferente. Acho que qualquer projeto voltado para crianças é interessante, pois elas têm um interesse verdadeiro em aprender”, observa.

O posto de Jacupiranga também fica bem próximo da biblioteca da cidade. Na verdade, ele fica dentro dela. A monitora Ione Carolina Bueno da Cruz Muniz já está acostumada com a circulação de crianças pra lá e pra cá e faz o possível para incentivá-los a ler tanto nos livros, quanto na Internet. O posto também fica próximo à APAE local, e foi lá que a monitora viu uma oportunidade para a criação de um projeto.

“Sempre gostei de lidar com portadores de síndrome de down, não sei explicar exatamente o porquê. Aqui na cidade eu já trabalhei como voluntária na APAE e em uma escola particular, onde também conheci pessoas com autismo.”

Pelo fato de já ter familiaridade com os funcionários e a diretora da APAE local, ela não encontrou dificuldades para propor sua ideia e estabelecer uma parceria. Juntos, eles montaram uma grade de aulas que inclui jogos e atividades voltadas ao aprendizado das letras, coordenação motora e pronúncia.

O projeto “APAE Online” já atendeu aproximadamente 50 pessoas. Carol enfatiza que os resultados são visíveis, especialmente na comunicação verbal e via web, uma vez que a pronúncia e o conhecimento do teclado evoluíram: “Eu aprendi a ver na dificuldade deles uma solução. Eles são muito melhores do que muita gente que se diz perfeito, que se diz normal”, finaliza.

Atualmente, a Rede de Projetos tem 719 projetos cadastrados. Para reconhecer essas iniciativas, este ano foi criado o Prêmio Acessa SP, que teve 78 inscritos e elegeu as ações mais inovadoras e relevantes dentro das comunidades onde estão inseridos. Para saber mais, acesse o Portal da Rede de Projetos.

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