Tudo começou na década de 1910, 1920, quando a terra vermelha e aparentemente fértil da região localizada no centro-oeste paulista, entre os rios Tietê e Paranapanema, começou a atrair migrantes interessados em plantar algodão. Contudo, logo verificou-se que o tal solo, depois de desmatado, não resistia muito às intempéries e a chuva o deixava arenoso. Mas um povoado já estava formado no local que, ao longo do tempo, se tornaria a cidade de Cabrália Paulista. Quem conta isso? Bem, nos últimos meses, é o comerciante Andrey Garbulio quem tem contado a história de Cabrália Paulista em uma coluna do jornal Correio Regional e no blog “O Mirante Sem Montanhas”.

Mas há quem conte essas histórias de Cabrália para Andrey, e não é nenhum historiador ou especialista. De família de comerciantes, ele está escrevendo textos sobre a sua cidade a partir dos relatos que ouviu e ouve até hoje de moradores, vizinhos, parentes. Herdeiro da profissão do pai e do avô, Andrey atua há 24 anos no ramo comercial. As histórias de Cabrália que são publicadas no jornal e no blog e que poderão virar um livro vêm do acúmulo de relatos feitos e ouvidos sempre ali, no mercadinho, no armazém da família.

“Um conta uma coisa, outro conta outra coisa. Você guarda. Agora, pretendo colocar tudo isso em um livro”, explica Andrey.

História feita de relatos e blogagens

Para a publicação de suas histórias no jornal Correio Regional, que circula em várias cidades da região, Andrey conta com a ajuda da jornalista Ana Cristina Consalter. Ele diz que não se interessa muito por computador e ainda prefere escrever as histórias à mão, com papel e caneta. Mas acha muito importante a divulgação feita também pelo blog. Para isso, conta com a ajuda de seu irmão e do posto do Acessa SP de Cabrália Paulista.

Tanto no jornal quanto no blog, Andrey divide as histórias de Cabrália em capítulos, começando com a origem da cidade. No blog já foram publicados nove capítulos e o comerciante tem mais três escritos. Ele pretende chegar até o 15o Capítulo, quando encerraria a empreitada, no período de 1967 da cronologia de Cabrália Paulista. “Penso em terminar com uma foto que mostra algumas crianças em frente à igreja. Assim, estariam representados o passado, o presente e o futuro”, conta o comerciante de 42 anos.

Os personagens das histórias são as pessoas que as relataram para Andrey, como seus avós. As fotos antigas que ele toma como referência em vários textos foram, na maioria, dadas a ele por um tio que chegou à Cabrália com 14 anos e que hoje está com 100 anos de idade. Andrey ainda conta com os relatos de antigamente feitos por quatro ou cinco idosos. “A grande maioria já se foi”, diz. Mas as histórias ficaram, e Andrey se orgulha delas. “Essas histórias passaram a ser também a minha história”, afirma ele. “Daqui a 10 anos, o cantador de histórias vou ser eu”.

Andrey Garbulio também usa como referência o livro “De Patrimônio do Mirante a Cabrália Paulista”, de Helena Bueno Costa Carvalho, “uma senhora que mora em Cabrália e que escreveu essa obra há 15 anos”, diz ele.

Mirante Sem Montanhas

Como o que interessa mesmo é história de Cabrália Paulista, e não é todo mundo que pode dar uma passada no mercadinho de Andrey para ouvir algumas delas, ele conta um fato curioso da cidade que explica o nome do blog, “O Mirante sem Montanhas”.

Inicialmente, o povoado chamava-se Patrimônio do Mirante e pertencia à Piratininga. A região possui uma cadeia montanhosa. No entanto, o local que era chamado de Mirante não ficava numa montanha! O nome era um contra-senso, pois tratava-se de “um mirante sem montanhas”. Por esse motivo, conta Andrey, foi substituído por Pirajaí e, mais tarde, virou Cabrália Paulista, em homenagem a Pedro Álvares Cabral.

Estação Cabrália!

Mais uma historinha de Andrey: você sabe por que Cabrália? O que o nosso historiador conta é que, segundo os relatos, uma ferrovia que existia na região tinha o sonho de compor o alfabeto com o nome das cidades pelas quais passava. Assim, surgiram cidades com os nomes de Alba, Brasília, Duartina, Esmeralda, Fernão… A estação correspondente ao “c” ficou com a antiga Patrimônio do Mirante, que virou Cabrália. Atualmente, as cidades de Esmeralda e Alba não existem mais. Duartina é vizinha de Cabrália Paulista, e Brasília é um pequeno distrito.

Cabrália Paulista, a cidade que começou com a promessa de terra vermelha fértil para plantadores de algodão, hoje possui plantações de Eucalipto, cana e laranja. Pequenina, possui cerca de 5 mil habitantes. Mas histórias, tem de sobra.

Confira abaixo o trecho de um dos capítulos das histórias de Andrey. E leia todos os outros no blog “O Mirante Sem Montanhas”.

O Mirante Sem Montanhas: Parte 3 (trecho)

‘A Vila do Mirante, que ainda era bairro de Piratininga, dava fortes indícios que seria um lugar que explodiria rapidamente em crescimento econômico e demográfico. Começava a atrair investimentos de proporções consideráveis. Com projeto elaborado pelo engenheiro da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, eram abertas largas avenidas que já projetavam o novo vilarejo para a cidade grande que provavelmente seria. A zona rural era onde a população se concentrava e surgiam os pequenos bairros como Floresta, Jibóia, etc.

Muitas casas eram construídas, casas comerciais e enormes barracões para o armazenamento de produtos agrícolas que eram escoados pela ferrovia (no trem de carga) e também por caminhões.

Ouvi o testemunho de um senhor natural de Cabrália, que se recorda em sua infância, de uma fila de caminhões desde o início da Rua Francisco Bueno dos Reis até a santinha do Asilo para carregar algodão nos barracões. O mundo católico, por sua vez, também via o vilarejo com esses olhos. Substituía a pequenina igrejinha de madeira com a construção de uma das maiores igrejas da região. Construía na mesma época, um enorme seminário no final de onde hoje é a Rua Mário Amaral Gurgel, mais precisamente nas imediações da Creche e Berçário Santa Maria Goretti até a entrada da Granja Céu Azul.

Com a ajuda da população da época, as duas obras foram terminadas. O mesmo morador que testemunhou a fila de caminhões, diz se lembrar que brincava no Seminário quando era menino. “Era um prédio enorme e quase todo de azulejo no seu interior”.(…)’

Imagens: blog “O Mirante Sem Montanhas”

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