Rechã é o maior distrito do município de Itapetininga. Com cerca de 7 mil moradores e a 42 kms do centro da cidade, abriga um posto do Acessa SP. Uma localidade assim pode, à primeira vista inclusive se observada de um mapa, estimular quem observa a pensar “nada deve acontecer nesse lugar”. Mas como acontece sempre em afirmações desse tipo, essa afirmativa não poderia soar mais enganosa.

E uma das pessoas que contribui para que Rechã seja uma localidade onde muita coisa acontece é Janaína de Albuquerque Lima, 30 anos, monitora do posto que fica nesse distrito: “no que depender de mim, aqui não vai faltar nada para ninguém. Sempre faço o máximo que posso através do meu trabalho no posto, para que as coisas aconteçam”.

Janaína Lima, monitora de Rechã: “o papel do monitor é educar e ajudar a sua comunidade”.

As ações desenvolvidas por ela comprovam: desde que começou a trabalhar no programa em desde o final de 2014, ela já desenvolveu quatro projetos. Todos com o mesmo caráter: ações pontuais que ativam a comunidade e reforçam o sentimento de apropriação do posto como um local de acesso ao conhecimento. Mas com um diferencial: independente de usar a tecnologia ou apenas o espaço onde o Acessa SP funciona.

O primeiro projeto foi uma horta que ela montou reaproveitando paletes de madeira que seriam jogados fora ou queimados e ela juntou as crianças do local para pintar com tintas que foram doadas pela comunidade e os vasos feitos com garrafas pet, construindo assim, um jardim dentro do posto.

A segunda ação foi chamada de “Dia da beleza masculina”. A ideia nasceu a partir da observação dela de que os jovens carentes de Rechã que não tinham dinheiro para cortar cabelo. Ela fez parceria com o seu estagiário, Joab que é cabelereiro e promoveu uma ação para fazer cortes gratuitamente em frente ao posto.

O terceiro projeto foi uma festa de natal. Ela acredita que o fato de o local ser muito carente, reforça o sentimento de unidade entre as pessoas: “aqui é um lugar muito pobre. Então quando alguém se mobiliza para fazer alguma coisa, todo mundo se ajuda. O povo aqui é muito unido.” Isso fez com a imagem do posto fosse vista além do acesso ao computador pura e simplesmente: “as mães dos adolescentes falam que aqui tem muito mais do que só acessar a internet. Eles aprendem de tudo. E isso, junto com os projetos ajuda a unir as pessoas ainda mais.”

Seu projeto mais recente foi o “Arraiá do Acessa SP”.  A maneira como o projeto foi desenvolvido serve de modelo para qualquer pessoa que esteja pensando em fazer algo pela sua comunidade. Começou quando, por conta de uma dificuldade técnica, o posto ficou algum tempo sem acesso à internet. Depois ela percebeu que muitas crianças talvez não conseguissem participar da festa junina em uma escola próxima porque a entrada seria cobrada.

Quadrilha no Arraiá em Rechã: a criançada se divertiu durante toda a tarde.

Juntando esses dois fatores e para garantir que todos pudessem viver essa experiência, ela saiu de casa em casa e no comércio local pedindo ajuda para montar a festa: “pedia bolo para uma pessoa, doce para outra, refrigerante, etc… Toda comunidade contribuiu, sem exceção”, mostrando que é na relação cotidiana que se constroem as parcerias de um projeto ou ação bem sucedida. A tecnologia empregada por Janaína é puramente social e ajuda a expandir os limites do programa para muito além da inclusão digital: “fiz a parceria pedindo de porta em porta. Muitas donas de casa ajudaram com o arroz-doce e o doce-de-abóbora. Os bolos vieram pela ajuda que eu pedi pelas redes sociais. O comércio também ajudou bastante.

A festa foi completa. Mais de 100 pessoas assistiram a apresentação de quadrilha composta de crianças moradoras do distrito. Depois de dançarem e cantarem musicas tradicionais, todos foram para dentro do espaço onde está o Acessa SP. Lá uma mesa gigantesca com muitos guloseimas como arroz-doce, pipoca, cachorro-quente, refrigerantes e muito mais. Tudo servido pelos voluntários que também atenderam ao chamado de Janaína. “As coisas aqui acontecem com a ajuda de todos, não estou sozinha. É um trabalho de equipe.”

Hora da comida: participantes da festa junina esperam na fila para comer os quitutes preparados pela comunidade.

E quanto aos computadores? O que eles têm a ver com a festa junina e os outros projetos desenvolvidos por Janaína. “O posto é o lugar onde as pessoas vem para usar internet. Mas acabamos criando um vínculo com os usuários. Muitos vêm aqui para conversar, pedir conselhos ou até dividir alguma conquista comigo. Às vezes me pergunto se tenho cara de psicóloga”. Toda essa relação com as pessoas desenvolvida com e por ela ajudou o posto de Rechã a se tornar um centro cultural da cidade. “O quero que as pessoas, principalmente os jovens e as crianças possam ter o que muitas vezes eu não tive.”

Ela faz muito além daquilo que é esperado dela como monitora. De onde viria essa motivação? “Acho que se tem que fazer o bem. Eu também já fui jovem e queria que essas coisas todas que eu faço acontecessem. Queria um ovo de páscoa e não tinha. Então, hoje eu tenho oportunidade trabalhando aqui de poder pedir para as pessoas ajudarem aqueles que não tem. Aprendi com meu avô e com a minha avó: se tiver um caroço de feijão no prato e a pessoa estiver com fome, divida que você vai receber em dobro. Por isso eu quero fazer cada vez mais projetos para ajudar eles e para a comunidade aqui de Rechã se unir cada vez mais.”

Em Rechã, Janaína Lima é monitora, amiga, professora e até psicóloga. Resultado: posto cheio e usuários fiéis.

Como é possível imaginar, Janaína tem muitos planos para o posto. “Eu sou muito sonhadora. Mas não fico só no sonho. Gosto de colocar as ideias em prática. Terminando a festa junina, já vou começar a organizar a festa do dia das crianças e em seguida um jogo de futsal beneficiente onde eu consiga arrecadar roupas e alimentos para as pessoas”.

Outro resultado de tudo isso é que Janaína é hoje uma das monitoras que tem um dos posto mais frequentados de todo o programa, chegando a quase 90% de sua capacidade total de atendimento diário. Ou seja, em pouco mais de 6 meses, o posto de Rechã já fez até o fechamento dessa reportagem mais de 6000 atendimentos, contando as semanas que o posto ficou sem acesso à iinternet.

Perguntada qual é o principal papel do monitor do Acessa SP ela diz que, além de liberar o acesso ao computador “é educar, ajudar e apoiar a comunidade. E até ser um pouco de psicológa, porque pelo menos aqui os adolescentes contam tudo pra mim. Ontem mesmo um deles veio todo feliz me contar que tinha conseguido um emprego depois de eu ter insistido para ele enviar um curriculum. Deu certo. Então nosso papel como monitor é também aconselhar as pessoas.”

Veja todas as fotos do Arraiá Acessa SP em Rechã no nossa conta no Flickr.

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4 comentários para Janaína Lima: muito além da inclusão digital

  1. Nelci Souza disse:

    Olha Janaina, me emocionei e aprendi bastante com teu exemplo.
    Como pude perceber vc está ali e faz além do teu trabalho; não por obrigação, mas por entrega.
    Realmente é de pessoas assim que o mundo está precisando, digo mais, é uma pessoa assim que temos todos que nos tornar.
    Forte abraço e para além do que faz, descubra seus sonhos e desenvolva açoes para alcança-lo. Vc com certeza será feliz.

  2. lazara disse:

    Faço minhas as palavras escritas por Cesar Rocha. Parabéns!

  3. Demais, parabéns Janaína!!!!

  4. Cesar Rocha disse:

    É com bastante alegria e otimismo que tomo conhecimento de iniciativa tão feliz como essa. Parabéns Janaína, é de gente assim que o mundo tem precisão.

    Vá sempre em frente.

    Parabéns Acessa São Paulo.

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